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Paulo Irineu - irineubarreto@bol.com.br

Paulo Irineu Barreto Fernandes é Mestre em Filosofia (Política e Social) pela Universidade Federal de Uberlândia. É professor de Filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro - Campus Uberlândia, realiza pesquisa nos seguintes temas: Teoria Crítica, Filosofia Política e Estética e é autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

  • Carpe Diem

    Você ainda é jovem, a vida é longa e você tem muito tempo para gastar.
    E então, um dia você percebe que dez anos ficaram para trás.
    Ninguém te disse quando correr, e você perdeu a largada”. (…)
    Planos fracassam e páginas são rabiscadas pela metade.
    Insistindo num desespero quieto, é o jeito inglês.
    O tempo se foi, a música acabou, achava que tinha mais o que dizer.

    (Pink Floyd, Time)

    “Aproveite o tempo!” Eis o verdadeiro significado da antiga expressão “Carpe diem” (colha o dia / aproveite o dia), atribuída ao poeta romano Horácio (65 – 08 a. C.), que na obra Odes escreveu: “Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você, (…) Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.”

    Embora muitos tenham tentado transformar a expressão “carpe diem” em um elogio ao hedonismo, através da satisfação imediata dos desejos, ela guarda um valor muito mais filosófico. Por isso, podemos afirmar que existem, para a expressão, dois entendimentos possíveis.

    O primeiro deles tornou-se, infelizmente, mais difundido e se refere à maneira como muitos se entregam, inconsequentemente, às paixões. Esse é um tipo de “carpe diem” às avessas, pois transforma o indivíduo em um mero apêndice do desejo. Não são poucos os que têm vivido dessa maneira nos dias atuais, sobretudo os jovens que, numa busca frenética de satisfação, submetem-se aos mais inusitados perigos, colocando em risco não só a sua saúde e a sua vida, como também a vida de outros.

    Essa busca inconsequente de satisfação se manifesta de diversas maneiras: no alcoolismo e no consumo de substâncias psicoativas; na ingestão de complexos e complementos vitamínicos sem acompanhamento médico; na prática sexual precoce e irresponsável e na combinação de mais de um desses componentes de risco, como a condução de veículos automotores sob o efeito do álcool. O resultado de toda essa irresponsabilidade não se faz esperar: alegria efêmera e sofrimento duradouro. Quem defende essa noção de “carpe diem” afirma que ela é um grito contra a opressão e contra a hipocrisia do establishiment. Um erro, no entanto, como é sabido, não justifica o outro.

    Há, por outro lado, um entendimento da expressão “carpe diem” que nos parece mais adequado: viver sabiamente o momento, sem nos esquecermos de que a felicidade verdadeira não é aquela que se esvai, mas sim aquela que perdura. Por mais que possa parecer interessante correr riscos, é sempre importante nunca perdermos de vista as possíveis consequências dos nossos atos, usufruindo do presente momento e, ao mesmo tempo, preparando, dentro do possível, o terreno sobre o qual continuaremos caminhando. Dessa forma, o tempo deixa de ser uma ameaça e se transforma em um aliado.

    Só assim poderemos evitar o desespero, antes que a nossa música termine… e quiçá possamos unir as palavras de Tomás Antônio Gonzaga:

    Ah! não, minha Marília,
    aproveite-se o tempo, antes que faça
    o estrago de roubar ao corpo as forças,
    e ao semblante a graça! (1)

    às palavras de Cora Coralina:

    Não morre aquele que deixou na terra
    a melodia de seu cântico
    na música de seus versos. (2)

    Notas:

    1 – GONZAGA, T. A. Marília de Dirceu. Parte I, Lira XIV.
    2 – CORA CORALINA. Meu Epitáfio.

    Trecho do texto foi extraído de “Ensaio sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”, P. Irineu Barreto.

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